O meu primo Rogério

Os mordomos da Capeia Arraiana 2011 de Ruivós entenderam, e bem, homenagear o Rogério um dos filhos da terra que mais recordações e saudades continua a fazer sentir em todos nós.

Rogério Caramelo Madeira (foto tirada na montanha de Davos) - autoria: José Carlos Lages

José Carlos LagesPerdoem-me os mais académicos destas coisas da comunicação mas hoje vou escrever com a emoção na ponta dos cliques sobre uma personalidade que apenas precisou de 22 anos para se afirmar como uma referência para todos os que o conheceram e que tiveram o privilégio de com ele conviver. Vou recordar o meu primo Rogério.

Há pessoas assim. Nascem. Crescem. E em poucos anos vivem uma vida eterna. A Igreja diz que para se ser santo é preciso fazer milagres. E se isso fosse suficiente o Rogério já fez o meu milagre. Conheci em vida o Rogério.
Deixou-nos cedo, demasiado cedo, com 22 anos, em 2001, num trágico acidente de viação na Suíça na carrinha da empresa. A notícia chegou ao final do dia feriado, 1 de Novembro, dia de todos os santos. Fui jantar a casa dos meus pais e, quando abriram a porta, percebi logo que alguma coisa não estava a correr bem. O meu irmão Paulo lá arranjou coragem para me dizer – «Morreu o Rogério» – Sentei-me, peguei em «A Bola» que trazia comigo e comecei a folhear as páginas como alibi para conseguir ficar em silêncio e desenhar os frames de um filme onde recordei os momentos que com ele partilhei.
As memórias tinham sempre uma imagem comum. O seu eterno sorriso.
Recordo o seu sorriso, envergonhado, que desenhava um suave agradecimento a quem o recebia.
Recordo as visitas que lhe fazia nos Seminários do Fundão e da Guarda naquele eterno vaivém que mantenho há muitos anos entre Lisboa e o Sabugal.
Recordo o tempo que passou em minha casa quando esteve, cerca de oito meses, na tropa na Academia Militar na Amadora. Para ele tudo estava bem. As estórias que contava da sua «guerra» eram sempre sobre animadas aventuras que vivia durante a semana. Mas poucos fins-de-semana o consegui segurar em Lisboa. «Fugia» sempre que podia para Ruivós, para junto da Tia Ilda e da Maria Cerdeira. Muitas das vezes nem precisava de entrar na casa de família, há muito vazia.
Recordo a alegria com que me disse no dia em que terminou a tropa que, finalmente, ia juntar-se à sua família na Suíça (pai, mãe e irmão) de quem sempre tinha vivido separado.
Primeiro o pai, empreiteiro, que deixou o concelho do Sabugal e procurou melhor qualidade de vida nas terras helvéticas. Depois a mãe e o Miguel (o irmão mais novo) foram de abalada para Zurique e o Rogério de abalada para o Seminário do Fundão na companhia do Geraldo do Osíris do Sabugal.
Sportinguista «doente» viveu comigo uma eterna picardia. Se as coisas não corriam bem lá para os lados da Luz já sabia o que me esperava. O telefone tocava e o leão gozava com a águia. Sempre que possível claro que me desforrava.
Um dia, por alturas da festa de São Paulo, telefonou-me por um motivo diferente. Já não sei se me pediu ou apenas me deu conhecimento. Em Junho precisava de mim em Zurique. Sem mais apenas lhe disse que sim. Na Portela encontrei-me com José Fernando, o padre motard, seu grande amigo desde os tempos do Seminário do Fundão. Também ele ia a Zurique participar na cerimónia do crisma do Rogério. Eu, com ar importante estampado no rosto, aproveitei para lhe dar notícia que ia ser o seu padrinho. Orgulhosamente.
Foi uma semana bem passada. O Rogério estava de férias e fizemos grandes viagens no seu orgulho – o Seat Cupra2 – que terminavam, inevitavelmente, à noite, numa passagem pelas Casas do Sporting e do Benfica em Zurique. E como ele ficou contente por lhe ter levado uma camisola do Sporting assinada por todos os jogadores do plantel.
Depois veio o mês de Agosto. Depois veio o primeiro dia de Novembro. E depois veio aquela viagem solitária que fiz até ao Porto para receber o seu corpo no aeroporto de Pedras Rubras e para o acompanhar em conjunto com os pais e o irmão até Ruivós. E depois vieram os gritos lancinantes que a carreta ouviu quando entrou no largo da fonte. E… E… E muito fica por contar.
No ano passado a tragédia abateu-se de novo sobre esta família. A Mariana, mãe do Rogério e do Miguel, e mulher do Fernando faleceu com cerca de 50 anos vitimada por um cancro.
Este ano, os mordomos da Capeia Arraiana de Ruivós, entenderem homenagear os dez anos do desaparecimento do Rogério. Justa e merecida homenagem. O meu bem-haja pela iniciativa destes mordomos.
Aproveito para acrescentar a este memorial a Mariana, o pai Fernando e o irmão Miguel.
O Rogério (e a sua mãe Mariana) estarão para sempre na memória daqueles que os conheceram.

Aqui deixo publicamente o desafio para a atribuição de o nome de uma das ruas de Ruivós ao Rogério Caramelo Madeira. Não será difícil substituir uma «rua do saco», «rua do meio», «rua de cima», «rua de baixo», «rua do chafariz», «rua da fonte» ou «rua sem nome» por um sentimento com valor.
«A Cidade e as Terras», opinião de José Carlos Lages

jcglages@gmail.com

Anúncios

One thought on “O meu primo Rogério

Add yours

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: