Festa de São Paulo em Ruivós

A festa de São Paulo comemora-se, todos os anos, no dia 25 de Janeiro. A freguesia de Ruivós teima em manter a tradição da sua veneração em data certa no gelado e frio mês de Janeiro. Chegados de Lisboa, de França ou da Suíça todos se juntam para contar os minutos efémeros da alvorada que repete todos os anos os foguetes de estoiro, resposta ou repetição e tenta manter o ribombar de outros tempos. Mas… até as canas deram lugar a finas ripas de madeira.

Cartaz Festa São Paulo - Ruivós - Sabugal
(clique nas imagem para ampliar)

José Carlos LagesDizem os nossos pais que os antigos já tentaram mudar a data da festa de São Paulo e que nesse ano os marranos da aldeia foram todos vítimas de misteriosa peste que a todos «vindimou». É uma lenda e vale o que vale. Mas por isso, ou também por isso, todos os anos os mordomos recomendam aos que vêm a seguir que melhor seria mudar a data para o Verão, ou pelo menos, para o fim-de-semana a seguir ao dia 25 de Janeiro. E todos dizem que sim, todos dizem «que seria muito melhor». E a proposta vai passando religiosamente de ano para ano. Sem efeitos práticos já se percebeu. Até porque enquanto houver ruivosenses residentes ou na migração deverá haver festividade da conversão de Saulo na Estrada de Damasco. Assim seja!
A festa de São Paulo tem sempre três mordomos. Os deste ano (2012) são o Paulo Rebelo (por Ruivós), o Paulo Lages (por Lisboa) e o Filipe Esteves (pela França e Suíça). A sua função é organizar e contratar a banda, os foguetes, os artistas, etc. e pedir a esmola aos ruivosenses do seu «círculo eleitoral». O mordomo francês «dá a volta» pelos seus conterrâneos no princípio de Novembro e o de Lisboa nos feriados de Dezembro enquanto o de Ruivós é quando lhe der mais jeito. Resta dizer que é com muita satisfação que são recebidos em todas as casas onde levam uma lembrança e aproveitam para fazer o convite para que todos estejam presentes nos dias da festa. Em troca receberem a «esmola» que todos dão com muita satisfação para ajudar à festa. «É pouco mas é de boa vontade», dizem uns. «Que São Paulo vos receba esta esmola com as suas bençãos», respondem os mordomos para ouvirem de seguida «e que São Paulo vos ajude nos vossos passos». Não é um ritual de uma sociedade secreta (como está agora na moda) mas simboliza o orgulho de um povo que está na emigração mas que tudo faz para não esquecer as suas origens. Assim mereçam os que ficaram na aldeia este orgulho e esta contribuição descomprometida dos que, por vezes, nem à festa podem ir.
Nos meus tempos de meninice a emoção fazia com que «saltássemos» da cama antes das oito horas da manhã. Isto dito assim não tem nada de especial. Mas se acrescentarmos que os aquecimentos e os recuperadores são relativamente recentes e que estamos no dia 25 de Janeiro numa terra que acorda quase todos os dias em tons de «branco geada» esta emoção de «saltar da cama muito cedo» passa a ter mais valor. – E porquê antes das oito horas da manhã? – Porque era por volta dessa hora que chegava a carreira com a banda da música e começava a alvorada. O fazer subir e estoirar foguetes é (era) um dos maiores orgulhos da festa de São Paulo em Ruivós. Era reconhecidamente uma das festas do concelho do Sabugal onde a alvorada durava mais tempo e transformou-se numa das imagens de marca de Ruivós. Chegou a prolongar-se por mais de uma hora sem interrupção.
A inconsciência da juventude leváva-nos a percorrer as tapadas em redor à procura das «bombas» que não tinham rebentado para as recolher e guardar num local secreto. Nas férias grandes do Verão quando íamos guardar as vacas ou as cabras levávamos nos bolsos as pequenas bombas com pólvora para despejar aos poucos numa pedra lisa. O pó cinzento era depois coberto com um pequeno seixo de forma a que nos permitisse fazê-lo rebentar com uma pedra maior arremessada do cimo da parede por um de nós. Brincadeiras muito perigosas de crianças inocentes. Mas vamos voltar ao presente…
Um dos momentos maiores da festa está programado para a noite de 24 de Janeiro com uma procissão de velas que percorre o caminho até à capela do cemitério que dista cerca de um quilómetro da aldeia para «ir buscar a imagem do santo para a igreja matriz».
No dia 25 a festa mete música (de banda) e claro a procissão que leva de volta à sua capela a imagem de São Paulo. Antes é fundamental recuperar forças num prolongado almoço onde as famílias convivem e recordam os presentes e os ausentes. Uma curiosa particularidade da festa de Ruivós consiste em dividir os músicos da banda pelas casas com chaminé fumegante, ou seja, os homens esperam no final da missa e levam com eles um, dois ou mais músicos para partilharem o almoço festivo.
O programa da festa de São Paulo em Ruivós é o seguinte:
Dia 24: 19:00, procissão das velas; 20:00, fogo de Artifício.
25 de Janeiro: 8:00, chegada da Banda Filarmónica de Silvares e Alvorada; 11:30, missa em Honra de São Paulo na Igreja Matriz seguida da procissão; 17:00, ressalva, despedida dos mordomos velhos e recepção dos novos; 21:30, baile no salão de festas abrilhantado pelo tocador Rui Alves.
Dia 26: 12:00, missa do Emigrante na capela de São Paulo; 14:00, volta das Adegas e degustação do Borrego; 21:30, baile no salão de festas abrilhantado pelo tocador Filipe Nunes.
Dia 27: 11:00, actuação dos «Bombos de Badamalos»; 16:00, convívio (Jogos); 21:30, baile no salão de festas abrilhantado pelo tocador Miguel Agostinho.
Dia 28 (sábado): 10:00, animação de Rua com a «Xaranga da Rebolosa»; 12:00, convívio com porco no espeto; 15:00, actuação do acordeonista Micael; 16:00, actuação do Rancho Folclórico da Enxabarda; e continuação do convívio com o acompanhamento do tocador Filipe Nunes; 21:30, baile no salão de festas abrilhantado pelo tocador Filipe Nunes.
É obra! Cinco dias de festa em Janeiro! Vivam os Mordomos! Viva Ruivós! Viva São Paulo!

As insígnias, os andores dos santos e do Senhor dos Passos e os guiões da procissão são os mesmos da nossa juventude. Os rostos são todos familiares. Mas, como sempre, dou comigo a desenhar as imagens daqueles que já partiram. Um beijo Pai.
«A Cidade e as Terras», opinião de José Carlos Lages

jcglages@gmail.com

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One thought on “Festa de São Paulo em Ruivós

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  1. É verdade que as festas de S. Paulo sempre foram memoráveis, e tudo o que descreves me faz voltar aos meus tempos de criança, aqueles tempos em que não abundava o dinheiro, mas que a festa sempre teve o brilho muito alto, não havia flores naturais para enfeitar o andor (também não havia dinheiro), mas eram lindas as flores de papel que eram feitas artesanalmente e o andor ía sempre lindo, as alvoradas marcavam o valor da festa, o pregador era sempre aguardado na espectativa do sermão, mesmo que repetidamente todos os anos, as pessoas presentes na missa aguardassem a célebre frase “SALO; SALO PORQUE ME PERSSEGUES”, era o ponto alto do sermão, depois tinha lugar a linda procissão do Senhor, onde saía o andor do Senhor com o Pálio, que era levado por rapazes solteiros, (segundos os antigos diziam, eram os que ainda não tinham pecados grandes) e a Umbela, era uma procissão feita com o maior respeito, percorria as ruas principais, ainda por calcetar, onde abundava a lama e tinhamos de andar a saltar de pedra em pedra para não ficar enlameados e só depois do almoço(jantar, assim se chamava na altura), é que se fazia a última procissão para levar de volta S. Paulo á capela, procissão também muito bonita, pois todos os santos da aldeia o acompanhavam nos seus lindos andores enfeitados. Portanto a festa tinha 3 procissões distintas, e havia pessoas, principalmente o pessoal feminino que fazia questão de estrear uma fatiota nova em todas as procissões.
    Só á noite é que tinha lugar o Baile, feito no largo da fonte, á luz de candeeiros com o célebre acordionista. Ao outro dia era o dia das familias se juntarem para comerem o BUCHO. Durante uma semana, a festa estava sempre animada, só quando chovia é que se tinha de arranjar um a loja ou uma casa onde se pudesse dançar. Enfim tempos da minha e de outros da minha idade que nos ficam na lembrança.
    É de louvar o não se ter perdido a tradição e apesar de haver algumas alterações sempre foram para melhor, a única que se devia de manter seria a procissão do Senhor.
    Também eu, como tu, sinto nesta altura a falta da presença daqueles que nos foram tão queridos e que viviam esta festa com toda a devoção, já partiram, mas neste dia parece que quando olho os vejo nos lugares que estava habituada a vê-los, e sinto que estão ao meu lado.
    Aos mordomos desejo que tudo corra como planearam e VIVIA S:PAULO

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